O mês de março – período em que nós
feministas reafirmamos nossas bandeiras para combater as desigualdades entre
homens e mulheres e a dominação masculina – nunca teve tanta simbologia
negativa no campo político como o março deste ano.
Os dados continuam desfavoráveis a
nós, ganhamos salário menor exercendo a mesma função, somos escandalosamente
vítimas das mais diferenciadas violências, nossa presença continua associada
aos cuidados da família e ao espaço privado e o moralismo continua firme no
controle do exercício da nossa sexualidade.
A frase de Simone de Beauvoir “O
mundo pertence aos homens” nunca esteve tão atual e pelo mês de março de 2015
eu a parafrasearia com “O Brasil pertence aos homens”.
Em meio às manifestações que foram
pautadas. Ou seria inflamadas? Pela grande mídia assistimos a um verdadeiro
festival de xingamentos machistas à presidenta da República. Xingamentos que
nada tinha a ver com conduta política, nada tinha a ver com postura de uma
representante do povo. Os xingamentos submetiam à uma avaliação da conduta
sexual da presidenta, além da triste imagem de uma mulher com cartaz escrito
“Feminicídio Sim, Fominicídio não”.
Não se trata aqui de avaliar a gestão
da presidenta Dilma, mas de denunciar o quanto essa cultura machista e patriarcal
constrange as mulheres e coloca em questão sua conduta sexual em lugar de uma
análise da postura política e de ações de governo.
Do ponto de vista da representação,
dos 513 deputados eleitos em 2014, apenas 51 são mulheres, isso significa que
mesmo sendo 51,3% da população de acordo com o IBGE, somos apenas 10% da Câmara
dos Deputados, dos 27 senadores eleitos, apenas 5 são mulheres, elas também não
estão presidindo os Conselhos de suas categorias profissionais, tem mais
dificuldade de chegar aos cargos de chefia.
Vemos mulheres serem ofertadas nas
propagandas de TV como brindes de produtos para os homens, ditando
comportamentos que nos mantém como apêndices de sujeitos masculinos, que ora
limpam a casa, cuidam dos filhos, servem a comida ou cumpre serviços sexuais a
estes seres humanos que vêm barganhando ações na Câmara dos Deputados que em
nada contribuem para a desconstrução das desigualdades. Vimos horrorizadas
falas deputados concordando com salários desiguais porque estas têm direito à
licença maternidade que as afasta do trabalho, ou mesmo quando vemos um
deputado afirmar no plenário que não estupraria uma ministra de Estado porque
ela não merece, justificando que a considera feia pra ser ESTUPRADA. Isso
mesmo! De acordo com esse deputado as mulheres bonitas merecem ser estupradas!
E assim prosseguimos com a máxima de
que “o Brasil pertence aos homens”! Seja no Mercado de Trabalho, nos espaços
privados de cada residência do país, ao caminhar pela rua, na escola dos filhos
e filhas, no exercício da política.
Não me conformo com essa lógica
perversa que fere radicalmente a democracia! Luto, assim como muitas
companheiras contra ela, mas, parece que em tempos de manifestações com
cartazes reivindicando intervenção militar e volta da ditadura, desconstruir
essa lógica para construir uma nação que pertença igualitariamente a homens e
mulheres é um sonho distante que vai exigir muita luta das companheiras
feministas!
Por Érika Gomes de Oliveira

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