quarta-feira, 25 de março de 2015

O Brasil pertence aos homens - Por Érika Gomes

O mês de março – período em que nós feministas reafirmamos nossas bandeiras para combater as desigualdades entre homens e mulheres e a dominação masculina – nunca teve tanta simbologia negativa no campo político como o março deste ano.
Os dados continuam desfavoráveis a nós, ganhamos salário menor exercendo a mesma função, somos escandalosamente vítimas das mais diferenciadas violências, nossa presença continua associada aos cuidados da família e ao espaço privado e o moralismo continua firme no controle do exercício da nossa sexualidade.
A frase de Simone de Beauvoir “O mundo pertence aos homens” nunca esteve tão atual e pelo mês de março de 2015 eu a parafrasearia com “O Brasil pertence aos homens”.
Em meio às manifestações que foram pautadas. Ou seria inflamadas? Pela grande mídia assistimos a um verdadeiro festival de xingamentos machistas à presidenta da República. Xingamentos que nada tinha a ver com conduta política, nada tinha a ver com postura de uma representante do povo. Os xingamentos submetiam à uma avaliação da conduta sexual da presidenta, além da triste imagem de uma mulher com cartaz escrito “Feminicídio Sim, Fominicídio não”.
Não se trata aqui de avaliar a gestão da presidenta Dilma, mas de denunciar o quanto essa cultura machista e patriarcal constrange as mulheres e coloca em questão sua conduta sexual em lugar de uma análise da postura política e de ações de governo.
Do ponto de vista da representação, dos 513 deputados eleitos em 2014, apenas 51 são mulheres, isso significa que mesmo sendo 51,3% da população de acordo com o IBGE, somos apenas 10% da Câmara dos Deputados, dos 27 senadores eleitos, apenas 5 são mulheres, elas também não estão presidindo os Conselhos de suas categorias profissionais, tem mais dificuldade de chegar aos cargos de chefia.
Vemos mulheres serem ofertadas nas propagandas de TV como brindes de produtos para os homens, ditando comportamentos que nos mantém como apêndices de sujeitos masculinos, que ora limpam a casa, cuidam dos filhos, servem a comida ou cumpre serviços sexuais a estes seres humanos que vêm barganhando ações na Câmara dos Deputados que em nada contribuem para a desconstrução das desigualdades. Vimos horrorizadas falas deputados concordando com salários desiguais porque estas têm direito à licença maternidade que as afasta do trabalho, ou mesmo quando vemos um deputado afirmar no plenário que não estupraria uma ministra de Estado porque ela não merece, justificando que a considera feia pra ser ESTUPRADA. Isso mesmo! De acordo com esse deputado as mulheres bonitas merecem ser estupradas!
E assim prosseguimos com a máxima de que “o Brasil pertence aos homens”! Seja no Mercado de Trabalho, nos espaços privados de cada residência do país, ao caminhar pela rua, na escola dos filhos e filhas, no exercício da política.

Não me conformo com essa lógica perversa que fere radicalmente a democracia! Luto, assim como muitas companheiras contra ela, mas, parece que em tempos de manifestações com cartazes reivindicando intervenção militar e volta da ditadura, desconstruir essa lógica para construir uma nação que pertença igualitariamente a homens e mulheres é um sonho distante que vai exigir muita luta das companheiras feministas!

Por Érika Gomes de Oliveira

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