A Marcha
das Vadias é um dos movimentos mundiais de maior importância na tentativa de
ruptura ao padrão de submissão feminina. A Marcha – ou SlutWalk – surgiu no Canadá, em 2011, após
registrarem-se diversos episódios de estupros na Universidade de Toronto. Na
época, o policial Michael Sanguinetti afirmou que as próprias mulheres seriam
as culpadas pelos crimes, porque se vestiam como “vadias”. Em resposta ao
infeliz comentário, pelo menos 3 mil mulheres canadenses organizaram-se em
protesto contra a culpabilização da mulher pela violência sofrida e contra o
controle de seus corpos por uma sociedade machista.
Desde então, a Marcha das Vadias vem
ocorrendo em diversos países, como Argentina, Holanda, EUA, Costa Rica, México,
Nicarágua, Suécia e Brasil, e sempre que acontecem são bastante difundidas
e discutidas na mídia. Os protestos centram-se na negação do machismo
naturalizado na sociedade e na luta pela igualdade de gênero:
“As militantes saem às ruas em
protesto sustentando-se por um discurso feminista que resiste/opõe-se ao
discurso machista que as motiva. […] para tanto, elas levantam cartazes,
mostram os corpos e mobilizam enunciados a fim de desestabilizar esse efeito de
evidência de sentido proveniente de uma formação discursiva machista e que
parece persistir no imaginário social contemporâneo” (RADDE, 2013, p. 3).
O uso do corpo como instrumento
político de reivindicação tem grande importância no movimento. As “vadias”
protestam nuas ou vestidas de lingeries, e escrevem nos próprios corpos sua
indignação. Como forma de repúdio ao discurso machista, elas não simplesmente
tiram os sutiãs, mas clamam pelo direito à liberdade. Em estudo sobre a Marcha
das Vadias no Brasil, Rassi (2012) lembra que as militantes reafirmam a ideia
de corpo como um instrumento ativo de poder, o que pode ser visto em
fotografias tiradas em diferentes edições do evento:
“[…] há um discurso de negação a um
discurso pré-construído de que a mulher é propriedade do homem, de que o corpo
da mulher pertence ao seu marido, e que ela lhe deve subserviência. As mulheres
se apropriam de seus corpos, enquanto propriedades de si mesmas e é dessa
posição que se dirigem aos homens para dizer que eles não têm direitos sobre
seus corpos. O corpo aqui é assumido como um lugar de luta, de poder e de
conquista” (RASSI, 2012, p. 56).
O protesto também denuncia grandes
equívocos cometidos pela sociedade, como o de priorizarmos que as mulheres
aprendam a ser respeitadas e submissas, ao invés de, antes de tudo, ensinarmos
os homens a respeitarem as mulheres:
O machismo está de tal forma
institucionalizado socialmente que se manifesta na necessidade de a mulher “se
valorizar”, “se dar ao respeito”, “não ser vulgar”, para só assim merecer ser
respeitada:
Contrariando todos os esforços em defesa da libertação feminina,
entretanto, ainda é muito comum observar manifestações das próprias mulheres em
favor de um discurso machista e subserviente. Um exemplo disso, também
amplamente midiatizado, foi a recente discussão das cantoras Pitty e Anitta no
programa Altas Horas, na TV Globo. No debate, Anitta defendia que as mulheres
“conseguiram ter os mesmos direitos que os homens”, que elas deveriam se dar ao
respeito para ter o respeito dos homens, e que os rumos do relacionamento
“dependem do comportamento da mulher”. A cantora Pitty rebateu as afirmações de
Anitta dizendo que as mulheres ainda não têm igualdade de direitos e que “o
homem não tem que achar nada”, a mulher deve ser livre para comportar-se e
vestir-se como quiser. O vídeo a seguir, editado por internautas que se
posicionaram frente à polêmica, mostra a discussão das cantoras:
A opinião de Anitta, longe de ser
isolada, sugere a existência de um fenômeno comportamental ainda bastante
disseminado em nossa sociedade: o preconceito de gênero está introjetado no
discurso das próprias mulheres.
Contrariando
todos os esforços em defesa da libertação feminina, entretanto, ainda é muito
comum observar manifestações das próprias mulheres em favor de um discurso
machista e subserviente. Um exemplo disso, também amplamente midiatizado, foi a
recente discussão das cantoras Pitty e Anitta no programa Altas Horas, na TV
Globo. No debate, Anitta defendia que as mulheres “conseguiram ter os mesmos
direitos que os homens”, que elas deveriam se dar ao respeito para ter o
respeito dos homens, e que os rumos do relacionamento “dependem do
comportamento da mulher”. A cantora Pitty rebateu as afirmações de Anitta
dizendo que as mulheres ainda não têm igualdade de direitos e que “o homem não
tem que achar nada”, a mulher deve ser livre para comportar-se e vestir-se como
quiser. O vídeo a seguir, editado por internautas que se posicionaram frente à
polêmica, mostra a discussão das cantoras:
A opinião de Anitta, longe de ser
isolada, sugere a existência de um fenômeno comportamental ainda bastante
disseminado em nossa sociedade: o preconceito de gênero está introjetado no
discurso das próprias mulheres.
Nossa cultura ainda ensina a
submissão e o machismo, mesmo que algumas vezes de maneira velada, sem que as
mulheres necessariamente sejam conscientes de suas atitudes servis/machistas.
Nesse sentido, tanto a Marcha das Vadias quanto a opinião defendida por Pitty
podem ser entendidas como movimentos que buscaram provocar rupturas na cultura
vigente de inferiorização do feminino.
Contudo, a despeito de significarem
grande avanço no debate social sobre o assunto, a extrema repercussão midiática
desses acontecimentos só reitera que o protesto em favor da mulher ainda é
considerado algo incomum, antinatural. Ou seja, algo que deveria ser
evidente e inquestionável – a liberdade feminina –, ainda é capaz de causar
tamanho alvoroço. Ironicamente, o fato de mulheres defenderem seus direitos
ainda configura acontecimento digno de notícia.
Movimentos de ruptura como esses são
capazes de suscitar o debate, mas também escancaram o quão longe ainda estamos
da igualdade de gênero e da naturalização da liberdade feminina.
TEXTO
Mariana Somariva
REFERÊNCIAS
RADDE,
A. Corpo e Resistência(s) na Constituição do Sujeito: O Discurso do
Corpo na Marcha das Vadias. 2013
RASSI, A.
P. Do acontecimento histórico ao acontecimento discursivo: uma
análise da “Marcha das vadias”. Rev. Hist. UEG – Goiânia, v.1, n.1, p.43-63,
jan./jun. 2012









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